sábado, 11 de junho de 2011

ALMAS ETERNAS


Um dia, foste o líquido, o suprimento único
O lar, o lugar, a zona de minha subjetividade
O espaço quente, morno de proteção
Local de encaixe perfeito para meu choro
Para minha ânsia de chorar em soluços
O tamanho ideal para meu vazio

Um dia, foste a mão suave após a queda
A força feroz em defesa da cria inábil
Os dentes rangendo de nervosismo
Ante minha segurança, meu bem, meu estar
Os olhos medrosos de saudades
O desafio insigne de me deixar caminhar

Um dia, foste certeza de cada uma dúvida
O grito contra meus atos, que te doeu mais
A engenharia subjetiva de meus projetos
A metodologia do improviso, do concreto
Meu desenho, o rabisco, as folhas imperfeitas
A mão sobre a minha como um amuleto

Um dia, foste o choro do momento decepção
A alegria-orgulho do meu jeito, imagem
O abraço atemporal no tempo certeiro
O sentir por trás do meu sorriso pela metade
A heroína, o acolher dos meus infantos medos
A calma de ninar apaziguando desesperos

Um dia, foste minha escola em regime de sempre
O molde de orgulhoso caráter, mesmo sem entender
O oásis único detentor de meus segredos em silêncio
A mais indecifrável chave de acesso livre, a mim
A presença pelo cheiro, pelos cabelos, pelo riso
Minha única certeza de eternidade

Um dia, foste meu remédio, minha cura
A dor latejando por mim, a fé que me sustentou
Meu agasalho de retalho completo em si próprio
O impossível para me agradar, meu presente mais raro
O termômetro de minhas sortes e azares
O sonho dormindo de sorriso largo, inconsciente

Um dia, foste a régua sozinha de cada traço torto
A fonte das vontades e o apoio sem olhar para trás
O inato, o instinto animal, o amor do tamanho do meu mundo
A canção de afago, a voz de fazer dormir,a paz
Um dia, Deus volta para os céus em vida
Porque hoje e desde sempre, ele é, aqui, a minha mãe