terça-feira, 20 de agosto de 2013

TRINTA GUACHE



Quantas duras mudanças, palavras insólitas e sonhos líquidos
Que foram desbotando com o simples toque da água, fria
E todas as promessas e todos os os homens e todas as mulheres
E todas as descobertas do corpo, todas as nuances nulas do ciúme
Todo o proibido, toda a ira da adolescência, os excessos de amor
Como fui todos beijos eternos e as juras fiéis efêmeras

Catorze, vezes, dezoito, zombava jovem do poder - que jurava dominar
Da sedução... e extrapolei meus instintos e fui a simples inerência
As possibilidades, os atos inocentes de um homem de mochila e sorrisos
Beijei a vida de olhos fechados, descobrindo, em meu possível, os limites
Como dominei em aquarela a imprecisão de um aprendiz, luzes
Pigmentos aglutinados a cada cor, a cada relação, como sem fim

Fui palco e aplausos, ator ao mentir buscando esmolas de aceitação
Temi olhares indiferentes, vaias, engoli insultos a gritos em silêncio
Perdi o sentido e minha referência, por vezes, minha mãe e minha vida
Chorando, correndo, fugindo... me refazendo, moldando, em esboço
Como ousei, em soluços, definir meus traços e merecer um só abraço
Pincel leve em parede áspera, porta fechada, vinte umas, vezes

Diante de belezas, apaixonei-me, são, em inúmeros relógios sem ponteiros
Permiti-me, concebido, seguir de mãos apertadas e unidas com o atrevimento
Com o que palpitava e descontrolava, as paixões e o estranhamento
E andei e busquei e celebrei... sempre com duas taças os brindes sem motivo
Mesmo tão solúvel como guache, mesmo ciente da inconsistência dos tons
Como fui música e sons, amigos e felicidade, noites e madrugada

Trinta e vezes criei, destruí dogmas, senti e delirei o êxtase, atemporal
O vício da permissão, os amores e as audácias... como estive nu em cafuné
Como persisti em mudar o débil imutável por compaixão, para ser feliz
Cantei em gritos na chuva, incoerente, forcei o choro voluntário para me conter
Quantas vezes li meus pedaços e, de degraus duplos, aglutinei e me reergui
Para hoje dominar apenas o seguro do vivido, em busca das tonalidades de mim

domingo, 9 de junho de 2013

CODINOME


Nomeio-me em tantos prenomes, ao acaso, de cada dia
Uma ousadia de assalto ao me refazer, ao não delimitar
Criei meu próprio pronome, a coesão mais ínfima e incerta
Produzo meus romances em que me tomo protagonista, vilão
Sou infinitamente meu próprio inimigo e me dou trégua
E volto e deliro, morro de paixão... e aflinjo e broto

Mas longe até de tua distância, ao tentar cabisbaixo te apagar
Sou pseudônimo, não me oriento em um passo de verdade, engano
Feliz em dentes abertos, incapaz e falso, encontro-me forte em lágrimas
Homem de certezas quebradas pelo tempo paulatino em feridas
Insano ao tentar desmerecer um sentimento passional, às avessas
Sem coerência, criança sozinha no escuro; em outros braços sou você

Vem em silêncio, apenas me encanta ao olhar em amor, deita
Me proteje em veludo , devolve meu nome, não importa meu orgulho
Debaixo de chuva, abraça desdespero minha dúvida e me reescreve
Pois sem metáforas, só o teu coração me envolve em vida, sinônimos
Sou sede, canção infinda, sem nota, sem melodia, sem letra, sem nome
Livre, em versos brancos e inacessível, incabível em cifras

terça-feira, 2 de abril de 2013

VISCERAL



Qualquer abismo em nuances deveras da tua voz
Trêmula estúpida inconsciente, em droga
A mão agressiva em paixão instintiva animal
Os sexos em orgasmos do toque cego em gritos
Meu corpo teu que responde em risos cachoeira
Cílios e olhinhos ao me doparem de puro amor
Meu sangue que age e compassa na tua respiração
Ofegante, instável, menino lindo inseguro

Sem teus magros pés, perdi as esquinas do caminho
Os dias todos sobrevivem sem ápices, atônitos
E nenhum modelo goza de minha virgem entrega
De quais olhos fechados enxergam teu desenho
Tua cor de aroma residente em minha pele arrepiada
Cada fino pelo, cada gosto quente da saliva
Reconheço calado teus movimentos, as espertas entonações
As mentiras em verdade e as verdades das mentiras

Em soluços, agora, rasguei a porra da moralidade
Relevei febril as infâmias e as feridas abertas
Cri apenas na melancolia excitada do que foi sublime
E nu te busquei na cama, iludido, ainda teu perfume
Fui, em feromônios, te encontrar, na varanda da noite
Vindo a mim, tua alma já estava perene em mim
Pois sabes e dominas meus mistérios e vontades
Fomos a certeza, sem cautela, da paixão incontrolável
Dos homens

quinta-feira, 14 de março de 2013

COMBUSTÃO


Na estrada inconsequente de brisas em pó
Nos cabelos do vento que em canto te assobiam
Sou somente a saudade orgulhosa que silencia
Nas vias de faixas amarelas em álcool do teu nome
No gole estado de estupor do teu corpo, ilusão
No run away da batida surda da tua falta
Festejamos sozinhos com sorrisos do canto da boca
No químico, no sólido, no intangível, onde esteja
Nas minhas veias vivas e sonoras, sem ritmo
Que ritmam a melodia de tua voz em chamas, louco
Toco meu rosto como que com teus magros dedos

Nas curvas delineadas da cumplicidade, infantis
No brilho maior da escuridão em estrelas
Somos uma párea inconsequente,telescópio em chamas
Nas pernas que balbuciam entrelaçar tuas coxas
Nas quentes mãos ao tentar te possuir em imagens
Crio teu cheiro dançando meu olfato pelos braços, só
No toque uivante longe, longínquo e severo
No instante isqueiro da chama que traga em luzes
Drogamos um ao outro em abraços de lágrimas
Nas cores indefinidas da tua escultura nua, perfeita
Nos meus pensamentos de pólvora, és fogo e melancolia
Sou risos , sou frase, sou a retórica perdida sem espaço

Na libido que distante se figura em fumaça, alquimia
Nos condutores repulsantes de beleza, só te pertenço
Sou menino, dono da tua poética quente sem estrofes
Na delicadeza sagaz da combustão, a paixão sem limites
No tabaco, no trago dos laços e nós-cegos diários
Somos maçaricos sãos de enfrentamento, de mãos dadas
Na fragilidade fósforo dos fatos, o impetuoso incêndio
No topo, no limite tangível da relação dos homens
Somos a reação pungente em cadeia de dois amantes
Na dor do pingo de vela para sarar, a cura pelo amor
Na contramão dos rótulos, os polos contrários totais
Juntos, à vida eterna na fogueira proibida

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

NADA


Quero a única eternidade para arrepender-me
E até lá vou olhar nos olhos e chorar alto
Soluçar de tanta vontade e mágoa
Suspirar o impróprio, vem de encontro
E me arrasto, e em troca, o silêncio
Rolando ao teu lado esperando teu toque
Me contento com teu cheiro de suor doce

Desabafo em letras, elas já nao dizem tudo de nada
Já nao abarcam todas as vogais, verdadeiras?
Ou minha inspiração etílica e abandonada
Chovia embaixo de uma capa furada por completo?
Mas me abraço em beijos de tua boca para não cair
Não esmorecer, não me molhar, me protege
Mesmo sendo essa nuvem suave e passageira

E volto, e vivo, e volto, e canto, mesmo sem voz
Por dentro, nas coisas tripas, no tempo que envelhece
Na tamanha vontade de fruir, de ser folha sem rumo
De fingir acreditar em promessas de olhos marejados
Garoto por momentos, agora... Clímax... Cicatriz...
E usurpo, e peco, e cumpro a sentença da tua distância
Todavia, olhando para o nada, nada de você

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

FIDELIS


É na fidelidade das palavras em doce hálito
Na mansidão e no furor das tímidas mãos
Na indecente entrega testemunha da paixão
Rosto suave em contornos fortes, perfeição
Beijos dissimulados que não consegui conter
Dos poros rasgando meus sentidos, desfrute
Os contornos em suor matando minha sede

É na felicidade companhia segura que clareia
No terror do passado escuro das cicatrizes e marcas
Na projeção real de tuas palavras, teu corpo
Os nomes, os signos, as imagens de um pacto de viver
A inerte ânsia contida por quem domina, por outro
O coração sem vidraça, a língua sem significados
Uma pedra jogada ao léu, uma escolha injusta

É na novena dos teus braços que danço
No paraíso trêmulo do canto da boca
Na reflexão sem medo, temeroso em miúdos
Frases de gritos baixos erradas em buscar razão
Olhos desarmados e assustados pela amplitude
Dos litros amargos das lágrimas arranhadas
Pela dúvida já sentida do nosso momentâneo sempre
Um amor entreaberto do passado em lâminas

É nos meus dedos que sinto teu cheiro puro
Na minha saliva que lubrifica o prazer inocente
Nas línguas ambas da madrugada e o perigo fumê
O ópio do toque e a nudez que dilata o pudor
Do feito de querer e do contrafeito do incerto
Que tiro a roupa do tempo e visto um relógio
De segundos eternos dos teus cachos de cumplicidade