domingo, 27 de outubro de 2024

LÁBIOS E CACOS


Homem não identificado, nome emprestado através de lábios viris, viço rubro macio

Doce umidade em um sarau inebriado de dois, o semblante em chagas

Abri a porta para traços grosseiros, abruptos e sensivelmente desordeiros

Feição sem controle, o reagente veneno deleitável, sem roupa e o não tempo 

As mãos compridas fumegando em tatos fascinantes concentrados em combate  

Um olhar ágil de perigo, um contorno de noite em um perfume bálsamo de banho 

O som que não soava, o silêncio do suspiro, a ofegante sensação, a erupção 

A taquicardia que se percebia nas ondulações, os pelos e os peitorais ariscos


O baile do diálogo dos poros abertos, a noturna obsessão consentida, os lençóis 

Fomos pulsação sanguínea em constrição, o desejo fútil da quem sabe única vez 

Do mais ausente fôlego à fugaz estenose de todas as partes, os dedos e os cabelos

Teus fios perfeitamente descompassados, a   avidez marota feliz de sentir o júbilo 

No Casbah, quis a bastante peçonha  viciante da jovialidade da nossa armadilha 

Consentida, assentida em abraços dançantes eretos, encaixados no escuro 

Braços anuídos nos ombros unidos a negras barbas grossas roçando em sobressalto

As luzes de um palco duvidoso, o forró escaletado, o cenário para todo desatino


Quantos dias revelamos a convulsão, a leveza da desnudez natural das duplas matérias 

Os instintivos uivos no Porto sem âncoras mas com todas as arrimos de sentir 

Os mares, as praias, o Bar do Galo, a direção em apuros, a estrada da luxúria 

Libertinagem pura constante como a necessidade de nutrir-se, doces famintos 

A perspicácia de consentir furacões vários enquanto o coração urge por parcimônia 

Então os desencontros, os vazios, as sortidas diferenças, o desejo perfurava 

Quiçá não se escutaram mais ruídos, gritos de sensatez, lambuzamo-nos de erros 

Dilacerados os vidros do amor, cegamos as películas que alicerçavam a areia frágil


Durante, a incapacidade brutal de cessar, de frear os instintos, de aceitar o amor 

A disparidade, os espíritos afins, caçadores de uma utopia menor que o que era mútuo 

A solitude acompanhada tangente à monomania, atração maior que a sensatez

A exímia compulsão, o cansaço até o sono enquanto havia o eterno sumo, fendas 

Moramos no quarto, choramos decepções não maiores que o prazer supramundano

Fomos, do todo, a insônia da madrugada e a dúvida dos dias ensolarados a distância 

Por fim, a fúria, o sangue, o grito de dor, a dolorosa sensação de que tudo será menor

Selaram-se beijos de cacos, morrendo gota a gota dentro da saudade presente 

Como desejo a rudeza devastadora da tua boca, teu olhar em ranhura na minha vastidão


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