quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

LUTO


No apagar das luzes da tua ausência infrutífera em vão, todo ato despovoado

Despertar em um reinado de ouro sem brilho ecoando no tempo imoderado, oco 

Como uma bruxaria em silêncio que faz algum beijo já qualquer dessabor

Uma dor orgulhosa, sem sono, padecendo do cheiro cru da tua boca violenta

E entre tantos sentidos e outros corpos desmedidos, a memória carente em lastro 

A saudade do desenho do teu fino e inebriante cabelo, as linhas até a bruta nuca

Toda a verdade maculada de uma distância  cinza quase devastadora dos meus ritos descalços

Uma ruína tão viva de pedaços gigantes de sol e luas, de todos os eclipses sem decoro 


No ínterim da eterna não assiduidade, meu corpo em bandejas opacas sem alças 

Como um filme sexta-feira de roteiro por frestas sem brio cada vez mais medrosas 

Imergido sem horizontes, foscos, míopes, quebrantes, carecente de com ou sem você

Caímos em um defeso cruel do não dito bloqueio, cultivo de peçonhas daninhas 

Aquela desvirtude que seca a garganta pra nos proteger de um mal criado por mil dores 

Na verdade, uma benquerença inédita como um bloco de carnaval da minha cabeça 

O riso incontrolável em meio ao caos e ao despudor só da certeza tatuada de existir 

E a imagem soberba da tua silhueta teimosa virginiana me fumando lícito entre os dedos


No extraordinário em partes, aparas de momentos vários quebradas em azuis infinitudes 

Restringidas a labirintos de caminhos feridas e de tantas curas, falso epílogo 

Abro janelas óbvias vento na testa assanhando como poeira olhos fechados 

Lá, nessa miragem, permanece você sorrindo como na última vez, com outro sorriso

Distante, meu grande impostor, falaz, frases vazias de dentinhos separados 

Sentimento hipocritamente real, permutado e nu, como que sempre saindo do banho   

Hoje, por mais que tudo sinta, a inconstância do que é raso sem superfície 

No pulo de um muro espinhoso sem calço, de luto, estou indo embora, amor

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

RODA


Amor é amplo território, hipnose aquiescida em um absorto distraído 

Vício natural, ordem travosa aleatória da lesa desordem, giro giro giro 

A moderação histérica de uma roda larga de carnaval, oca e veloz

Banho de quase chuva em hino descompassado, míngua de sede 

Casta imperfeita de dois ruídos, confusos, a inconclusa paz amiúda 

Legítimo disco de ambos os lados, fadado ao fim de factíveis redemoinhos  

Roleta mundana de todas as munições penhoradas, jogo de valor irrestrito 

Círculo suicida por voltas em globos diários da morte do jamais consensual


Plano rabiscado a lápis em uma esfera infalsa, frágil como o zelo desesperado 

Narrativa esférica de obra aberta de finais já sabidos, autoria distorcida 

O circuito alinhado com a dor de tanto sentir, avulso sem pestanejar 

Arco de linhas frágeis, suscetíveis, miragem míope estonteante para o abismo

Abóbada prestes a desabar sustentada pelo desejo movediço 

Tortura perene consentida sem realismos, corpo fluido e o sangue quente

Insensível insulto dos céticos desacreditados, ansiosos por mais 

Arco vermelho de suplício encantamento quando do encontro da primeira vez 


Xadrez encíclico dupla peça de tantos jogos, peças e estações incoerentes 

A luta injusta de tantas regras inúteis quando apenas se ama incondicional

Choro alado contrito depois de incontáveis promessas que nunca se cumprem 

O alento do cheiro natural, o não perfume, o  bálsamo da foz de corpos trêmulos

Dança de bambolês lambada de quadris circundando mãos pela híspida cervical 

Porto sem cais, solto e avesso, embarque apressado para todas as sensações 

Cão eufórico sem coleira de todas as decisões fumaça de pronto arrependidos 

A injúria injusta de incumbir ao outro o ciclo obsessivo do prazer, o ato gozo qualquer

sexta-feira, 14 de março de 2025

SERENO


Resiliente, ego e agradecimentos de bem, dançando encharcado de sereno 
Pouco a pouco, gota a gota, nos poros, calafrio como palavras úmidas ao ouvido 

Que seja calmaria, toques em chuvisco, a dúvida morna imoral sem mudar

A não culpa leve escorrendo água pacata na certeza massa do incompatível 

As deveras incertezas em segundo plano enquanto os líquidos esborram nus

Esquecidos são os pensamentos feridos repetidos nesse jogo varão embriagante

Capitoso, capcioso então alerta, chega e sua de corpo todo, devagar e volumoso 

Paulatino rosto em rosto, rasgando dois corpos em um chamego lento harmonioso


Pilhério, galhofa das tempestades em copos de tantos comprimentos sem tamanho

Como solvente universal, seja burlesco zombeteiro dos males ansiosos

Galante, garboso, de natureza pluvial horizontal avaçalador de todos caminhos

Que permaneça gradativo encandecente, desnorteador de desfechos dogmáticos

O tempo gracioso de qualquer complacência indulgente em anuência 

A festividade orgástica do sim condescendente onde não há nãos 

Brincante folião diário, aguaceira de mangueira ao sol, limão, açúcar e Pitu 

Chuva de prata, brilhante pancada d’água, o de sempre tão inovador quanto viver


Ludibrioso consentido, de orixá, de cabeça, espiritualidades axé e alfazemas

Jamais inodoro, nunca insípido, destituído de quaisquer vastos sabores sortidos 

Compasso e percussão, batuque ancestral na mútua, dupla, concepção do desejo 

Inacabável, perpétuo, tal imenso maravilhamento consiga, ébrio, anuir 

Que seja transpiração, sarro vertical de dois polos, madrugadas com turnos sem relógio 

Estupefação, pingos grossos na areia, ferro e fogo, movimento de tambor estridente 

Tromba d’água, fúria risonha narcótica, a infalível certeza da imatura jovialidade 

Deita-me em um giro desnorteante olho a olho sem piscar, rindo de tanto chorar 


Caçoador, escarnece o que moribunda com a arma do entusiasmo de possibilidades

Cai em toró. Aleatório, instaura um dilúvio revoada em um pulsar gradativo imenso 

Delírios, formando arco-íris distópicos enlaçados de integrais autopermissividades

Que conceda, de mãos livres, o pacto da experiência coletiva, do cíclico, aliança 

Desassossego de todas as rotinas, que me inquieta; sobressalta meu corpo e almas

Fluvial, amante, perene, foz de rio de todas as aventuras e de todos os romances 

Seja cobiça alegre, inveja com a nossa, a presença inesgotável de luzes neon 

Desemboca-me no mar, constante, ávido pela abundância, o apetite e a sede