quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

RUA & CHÃO



Desejei poder me diluir em poucos
E de poucos pedaços parecer, invisível
Busquei o faro instinto e com sobriedade
Mesmo agressiva e agredidamente agredido
Lembrei meu passado, meu ideal de amor
Uma bala a tiro que perde força com a idade
Uma imagem na neblina fosca e turva
Não há mais esperança

Tratei de vasculhar a mais tenra memória
Como me destruiu a todos os Eternos
Como doar transformou-se em flagelo
E como as lágrimas inverteram o curso...
Transformei-me em rocha sem cachoeira
Sofrimento perene em sorriso travestido
Da boca vomitada da dulce verdadeira
Que o efêmero teima em solver
Enquanto morro meus sonhos ambos

Culpei em milésimos sem fim todas atitudes
Minhas, somadas, diminuídas nas ruas
Nas matemáticas frias de cada relação
Dos sexos impróprios, dos gozos contentes
E me vi ali, ouvindo, sem te enxergar, teus gritos
Teus xingamentos e tuas fraquezas, álcool
Cada toque bruto me instiga primitivos
E me tomei de consciência para não te agredir

Sentei tonto na larga calçada, juntos
E sua feição foi se afastando para sempre
Caminhando desfocada, dopada, para o jamais
Éramos eu e o universo do passado, sãos
Mudos, não humilhados, sentindo pena
Pedindo a Deus para te humanizar, bicho
Conter minhas chagas em chamas
Para me arrepender, novamente, do erro da escolha




quarta-feira, 28 de novembro de 2012

ESPELHO


Falam em ficar sem chão, estar sem rumo
Permaneço sem alma, sem luz, em deserto
Tomado conscientemente da falta de perto
Do medo do rancor de para sempre, em dor
E durante muito tempo, serei alguns poucos
Um espelho em cacos e uma imagem sem moldura

Como a cólera supera espaços em que o amor
Impera entre dois seres? Uma dupla eterna
As mãos de faca afiada que cortaram a paz
A base, a estrutura perfeita de nós cúmplices
Os gritos ilícitos e a força onde havia pureza
As palavras sem fim, sem começo, armas duras

Detalhes infinitos que me mantêm em vazio
Sem horizontes, como se em morte aos poucos
Meu rosto não comporta em total meu sorriso
Não contempla minha tristeza infinda e o temor
O horror da solidão e da consciência, minha vida
Como me arrependo de existir nesse instante

E me ponho ao balbuciar desculpas sozinho
Em constantes lágrimas me indago sobre o momento
Em que me perdi de ti e quis desistir de mim
Pois duvido que algum homem ame a seu ídolo
Sua fonte do paraíso, sua eternidade, seu cerne
Como eu, em chamas e em lágrimas, a minha mãe

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

MAR

Longa extensão de água salgada em suores
Um encontro, os olhares de desvio, o sorriso
Os olhos pretos de perigo e o canto feliz da boca
O sinuoso limite entre o mar e tua cor de sabores
E minha boca mirava cada traço, desenho perfeito
E minhas mãos, ao vento, em tato, sentiram

O inesperado reencontro do nosso laço aberto
Com um toque daquele riso que me beijou em silêncio
Quis a maresia nos teus cabelos, o contorno dos lábios
E, propositalmente, o sol iluminou somente teu rosto
E a areia, quente, trilhava simples um só um caminho
Já não havia alguém e ninguém era mais lindo

A inocência cabisbaixa, em ondas, te permitiu vir a mim
A ânsia em pertencer em momento ao desconhecido
O corpo tremendo em palavras nervosas e ansiosas
E te senti como a água que me combria em banho
Como se cada gota fosse cada toque, cada abraço...
Vem, em fúria, e me redescobre em arrepios do novo


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

EFÊMEROS



Como uma chuva de gotas de força bruta
Um desejo em sinestesia, em rajadas, nervoso
Em meus olhos de paixão foste fresco colírio
Os pés sem compasso à busca, instáveis
A forte respiração que fitava tua boca linear
Úmida, única, tentando com cheiro de momento
Assim como um carvão em chama lábil, vermelha

Tuas palavras, teus sonhos possíveis, fututo cônjuge
Sentimento súbito de delito, passional consciente
Ânsia edionda, criminosa, de sentir tua mão delicada
Teu charme me destruiu , torceu-me em estático, trêmulo
Meus músculos responderam em nervos eufóricos
Já não respirava em controle, rimas despretenciosas
Arma auspiciosa capaz de inanição, em nuvens

Nosso nu, o reconhecimento e o tato metafísico
Os beiços molhados, involuntários, desejosos de unidade
As linhas, as curvas, a métrica delicada, infindas
A arte do meu plano ideal, a sede que não se continha
O apego que já nasceu desapego, a certeza em silêncio
Deleitei-me em nosso feitiço sem truques, límpido
Assediamo-nos na pujança dos corpos, produto de amor

sábado, 1 de setembro de 2012

DISSOLUTO



Pude por anos dizer que não
Meu corpo te querendo em ódio, selvagem
Libertino, teu olhar horizontal me pertubou
Alvejando, sem freios, meus bons costumes
A dêixis sã do que eu tinha como amor
Homem culpado, desregrado, impune
Imune, em ações, às minhas convenções

Pude por vezes não desfrutar
Meu desejo traindo a mim mesmo, a suja pureza
Concupiscente, a entrega era medrosa e lasciva
Compilando o êxtaxe e as dúvidas em um momento
O segundo plano de uma obra protagonista
Companhia voluptuosa, em gritos, silenciosa
Impudico, impiedoso, dono da minha libido

Pude em lucidez te julgar
Minha verdade projetando o modelo de ti, perfeito
Cônscio, meus moldes sem efeito, inúteis
É em tua liberdade, teu sopro de força de vida
O limite imensurável e intocável, em risos
Cúmplice sem palavras, os atos, mesmo em distonia
Coeso e incoerente, a confusão de minhas escolhas

Pude em gestos te reprovar
Minhas atitudes cabisbaixas e palavras cravadas, afiadas
Covarde, te troquei por certezas sem emoção, efêmeras
Mas é em minha lúcuda embriaguez, cara sem máscaras
Que me ligo em único, sem anexos, sem regras alheias
Amando em loucura, em qualquer verdade, entorpecente
A ti, meu vício eterno sem cura

sábado, 23 de junho de 2012

CANELA DE SAUDADE



Que cheiro de cozinha ao leite de coco
De voinha com a mão na peneira, misturando o leite com o milho
Do açúcar que inunda o espaço
Do amarelo que tonifica os objetos
Da colher de pau lambida, escondido
Da quenga de coco para raspar com açúcar, pense que gostoso
Das bacias coloridas com os ingredientes exalando juninidade
Do ralador e do bagaço
Das xícaras marrons na medida certa
Do cravo impotente em sua muideza

Do calor do caldeirão, do fogão velho
Do caldo engrossando, do amarelo que muda de amarelo
Das palhas, dos cabelos
Do rádio que tocava forró, das rizadas de lembranças
Das horas ao fogo e do toque de erva doce ao final, que delícia!
Da canjica doce e gelatinosa
Da pamonha perfeita que não estoura
Do pé-de-moleque forte à castanha
Da cumplicidade, éramos nós dois

Das seis horas da noite
Da minha roupa nova, o sapato cheiroso
Do chapéu de palha coçando a cabeça
De mainha dando o toque final, o carinho
Do bigodinho e do cavanhaque a lápis preto
Do cabelo à prova de fumaça, das lágrimas
Das fogueiras, do querosene, da bola de papel com óleo
Do medo de me queimar, da brasa boa de pular
Do traco de massa, do peido-de-veia, da bomba

Da quadrilha, das vozes, dos gritos
Das músicas, da força que arrepiava, dos prazeres
Dos palhoções,das luzes e das palmas
Dos passinhos de forró, o suor das meninas
Do cheiro de felicidade, da expressão da alegria
Do sorriso coletivo ao acompanhar um balão no céu
Da beleza dos arraiais, as bandeirolas, as bandeiras
Das cores, do ritmo contagiante e empolgante
Do final da festa e das lembranças
De saborear minha infância e sua inocência

domingo, 15 de abril de 2012

LATINO


Dentre todas as escolhas, o choque de impossibilidades
Dentre todos os laços, o lindo cadarço mas solto e sujo
Dentre todos os sim, os agora... o depois da incerteza
O não-dito do improvável que separa mesmo juntos
Contudo, dentre os que gozam, o que delira e me altera em febre

A vodka proibida e provocante, o momento, a expectativa
A dose, o litro, o ópio... a droga, o ilícito e o improvável
Dentre o estável, o que me desconcerta, desestabiliza
O ínfimo, o infame, as unhas nas costas marcando em tatuagem
O prazer e o amor sobrepujando a dúvida, êxtase em êxtase

Dentre todas as saudades, a que mais dói em não querer sentir
O instinto de longe estar ao teu lado, mesmo em fúria e vazio
Perder-me dentro de mim ao justificar minha intensa vã vontade
Uma quase inanição de meus propósitos, minhas atitudes; perdido
A fagulha de acreditar no teu sorriso, nas minhas projeções e promessas

No fim, como fui centelhas de prantos sem reação, jorrando a voz
Gritos e indagações balbuciadas no volante atordoado embriagado
O soluço interminável do fim, do estado de graça, do feliz
A recriação inacabada do que já não me levava em sonho
Flâmula apagada à força bruta, desumana, sem limites
Ah, coração disléxico e daltônico de sensações

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

DOCES CONFETES


Amor e Carnaval
Palavras antônimas que se anulam, intocáveis polos
Nem no mesmo verso, nem na mesma rima
Duas linhas... uma apaixonada, outra volúvel
Mas que se transformaram naquela última noite em uma
Uma volúpia inocente, uma corda de sensações
Desfile de paixão em máscara de papel machê

A escolha dentre cada corpo de vontades
Encaixe em moldes dos nossos vazios, o olhar desviado
E a aproximação que me fez tremer só em chegar
Desenhando aos poucos tua imagem e a minha coragem
Em um aperto de mão de tempos anos luz, olhamo-nos
Como se já deduzíssemos a força e a intensidade de tudo
De cada, do todo... e o frevo silenciou as vozes alheias

Teu cheiro me recebeu antes de eu tentar falar e emudeci
O galanteio grave por essa voz que me paralisou; suspirei, suspiramos
A boca desejando falar enquanto já te dominava em sabores
Os cabelos de orquídea suave em minhas mãos, felizes e incertas
E a simbiose de pertencer, a ânsia, o contato de estado de graça
Sem comandos, éramos o deleite doce um do outro
E como em transe, sussurrávamos promessas de para sempre

Praia deserta, noite de lua amante e de entrega
Teus contornos assobiados pela maresia do mar, peles quentes
A vontade de dizer, de jurar, de te esconder para mim, para sempre
Nossa dança, sinal de foda-se o mundo, uma paixão sorriso
Um amor instantâneo platônico junto, incrivelmente real

Marco Zero e Alceu, o forte etílico – beijos, carinhos e abraços
Cada rua do Antigo foi cúmplice e estava mais feliz naquela noite
E, enfim, a ponte colorida de carnaval, despedida com lágrimas, sem confetes
Esqueci o medo de ser um simples pierrot, sorri, deixei-me iludir de saudades
Cantei teus passos até não te enxergar mais, tentei correr alguns passos
Mas me contentei com teu cheiro e a incerteza consciente da realidade
Pois não há lugar que eu não possa te reencontrar e ser infinito, de novo

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

RESTOS DE ETERNIDADE


Que dor em talhos de saudade
Dessa porra nula que não decifro
Que acende à minha volta, insana
Em luzes, refletores brancos deste oco
O indecifrável sofrer do que resta
Do que só minha feição transborda, inunda
Em olheiras de culpa e de marcas, imundas
Cicatrizes decaptantes de arrependimento

Nem todas as bocas, úmidas e hipnotizantes
Ou olhares-flechas tonturantes
Toque-contorno-do-rosto, de epiderme
Nem ao menos o hálito cru e leve
Enfeitiçariam o azedume de meu paladar
A frieza dos meus lábios com veneno
Já sem iscas para novas armadilhas
Sai de retro, perdição de um momento

Líquido suor em vapores quentes
Unhas e dedos, mãos e órgãos, macios
Pernas e línguas, o momento-suspiro
O ar que foge e o tronco que se contorce
O grito e o gemido... e o nojo do toque
A solidão acompanhada do cigarro do desengano
Com ânsia de vômito do orgasmo
Em uma busca cega do fiel eterno